Publicado no Portal TEA @portaldoteaoficial, em 23 de agosto de 2026, em apoio aos seus livros pela Wak Editora @wakeditora, “Intervenções Psicológicas Em Pessoas Com Deficiência”, “Psicologia e Inclusão” e “As Pessoas Com Deficiência Na História Do Brasil”, editados por Pedro Wak @pedro.wak e apoio na divulgação de Ana Lúcia Bonfim @analucia.bomfim, assessora de imprensa.
1.
O tema da Semana Nacional da Pessoa com
Deficiência Intelectual e Múltipla de 2026 afirma: “Deficiência não define.
Oportunidade transforma. Inclua nossa voz!”. O que essa mensagem representa
para você, considerando também sua
2.
trajetória pessoal e profissional?
EMÍLIO FIGUEIRA: Para mim, essa mensagem
resume uma verdade que aprendi tanto na minha vida pessoal quanto na minha
trajetória profissional. A deficiência não define quem uma pessoa é, nem o que
ela pode realizar. O que realmente faz diferença são as oportunidades que ela
recebe ao longo da vida. Quando existem acesso, educação de qualidade,
trabalho, respeito e espaço para participar das decisões, as pessoas conseguem
mostrar seu potencial.
Ao longo de muitos anos pesquisando,
escrevendo e convivendo com pessoas com deficiência, percebi que a maior parte
das dificuldades não está na deficiência em si, mas nas barreiras que a
sociedade cria. Por isso, a frase "Inclua nossa voz!" é tão
importante. Ela nos lembra que não basta falar sobre inclusão; é preciso ouvir
as pessoas com deficiência, respeitar suas escolhas e garantir que elas
participem das decisões que afetam suas vidas. A inclusão verdadeira acontece
quando deixamos de enxergar a pessoa apenas pela deficiência e passamos a
reconhecê-la como protagonista da própria história.
3.
A expressão “Inclua nossa voz!” chama atenção
para a necessidade de escutar as próprias pessoas com deficiência. Na prática,
o que significa promover uma verdadeira escuta ativa, em vez de apenas falar
sobre inclusão?
EMÍLIO FIGUEIRA: Promover uma verdadeira escuta ativa
significa entender que a pessoa com deficiência não pode ser apenas consultada
por educação ou para cumprir um protocolo. Ela precisa ser ouvida de verdade, e
sua opinião deve influenciar as decisões que dizem respeito à sua vida.
Infelizmente, ainda é comum que familiares, profissionais e instituições
decidam o que é melhor sem perguntar o que a própria pessoa pensa, deseja ou
espera. Isso pode acontecer até com boa intenção, mas continua sendo uma forma
de retirar seu protagonismo.
Escutar de verdade também exige humildade. É preciso
reconhecer que ninguém conhece melhor a realidade de uma pessoa do que ela
mesma. O conhecimento técnico de profissionais e a experiência das famílias são
importantes, mas não substituem a vivência de quem enfrenta diariamente as
barreiras da sociedade. Em muitos casos, basta fazer uma pergunta simples:
"O que você prefere?" ou "Como você gostaria que isso fosse
feito?". Essa mudança de atitude faz uma enorme diferença.
Também é importante lembrar que nem todas as pessoas
se comunicam da mesma forma. Algumas utilizam recursos de comunicação
alternativa, outras precisam de mais tempo para se expressar, e isso deve ser
respeitado. Escuta ativa é criar condições para que cada pessoa possa se
manifestar do seu jeito. Quando isso acontece, deixamos de falar apenas sobre
inclusão e passamos a construir uma inclusão em que as pessoas com deficiência
realmente participam, opinam e ajudam a definir os caminhos que dizem respeito
às suas próprias vidas.
4.
O lema “Nada sobre nós, sem nós” tornou-se uma
importante expressão do movimento das pessoas com deficiência. Por que ainda é
necessário reforçar que decisões sobre suas vidas não devem ser tomadas sem sua
participação?
EMÍLIO FIGUEIRA: Embora o lema "Nada sobre nós, sem nós"
exista há décadas, ele continua atual porque muitas decisões ainda são tomadas
sem a participação efetiva das pessoas com deficiência. Isso acontece na
criação de políticas públicas, em projetos educacionais e, muitas vezes, até
dentro da própria família. Quando a pessoa não participa das decisões que dizem
respeito à sua vida, perde autonomia e deixa de ser protagonista da própria
história. Ouvir e envolver as pessoas com deficiência não é apenas uma questão
de respeito, mas de justiça. Quem vive a deficiência conhece como ninguém os
desafios, as barreiras e também as soluções que podem fazer a diferença. Por
isso, nenhuma iniciativa voltada a esse público deveria ser construída sem a
participação ativa de quem será diretamente beneficiado por ela.
5.
Existe uma diferença entre oferecer ajuda e,
mesmo com boa intenção, acabar retirando a autonomia da pessoa com deficiência.
Como famílias, educadores e profissionais podem reconhecer esse limite e
favorecer escolhas e independência?
EMÍLIO FIGUEIRA: Existe uma diferença muito grande entre apoiar e decidir pela pessoa. A
ajuda é importante quando amplia a autonomia. Ela deixa de ser positiva quando
passa a substituir a vontade da pessoa com deficiência. Muitas vezes isso
acontece por excesso de proteção ou pelo desejo sincero de evitar dificuldades,
mas o resultado pode ser o mesmo: a pessoa perde oportunidades de aprender,
fazer escolhas e ganhar independência.
Famílias, educadores e profissionais podem evitar isso adotando uma
postura simples: oferecer apoio sem retirar o direito de decidir. Sempre que
possível, é importante perguntar, dar opções e respeitar as preferências da
própria pessoa, mesmo quando ela faz escolhas diferentes das que os outros
fariam. Também é preciso compreender que autonomia não significa fazer tudo
sozinho, mas ter o direito de participar das decisões sobre a própria vida,
contando com os apoios necessários. Quando valorizamos essa participação,
ajudamos a construir pessoas mais confiantes, independentes e protagonistas de
sua própria história.
6.
Sua trajetória reúne literatura, psicologia,
psicanálise, jornalismo, pesquisa e educação. Em sua experiência, qual é o
impacto das oportunidades na construção da autonomia e das possibilidades de
vida de uma pessoa com deficiência?
EMÍLIO FIGUEIRA: Minha própria trajetória me ensinou que oportunidades transformam
vidas. Tive a sorte de crescer em uma família que sempre acreditou na minha
capacidade e me incentivou a conquistar autonomia. Meus pais não ignoravam minhas
limitações, mas nunca permitiram que elas definissem quem eu era ou
determinassem até onde eu poderia chegar. Eles me estimularam a estudar,
assumir responsabilidades, tomar decisões e enfrentar desafios, mesmo quando
isso parecia mais difícil. Esse apoio fez toda a diferença na pessoa que me
tornei.
Ao longo da minha vida, pude perceber que autonomia não nasce apenas da
força de vontade. Ela é construída quando alguém acredita em você e oferece
oportunidades reais de desenvolvimento. Foi isso que me permitiu seguir
diferentes caminhos, como a literatura, a psicologia, a psicanálise, o
jornalismo, a pesquisa e a educação. Cada uma dessas experiências ampliou minha
visão sobre a inclusão e reforçou uma convicção: quando a sociedade oferece
oportunidades, as pessoas com deficiência deixam de ser vistas pelas limitações
e passam a ser reconhecidas por suas capacidades, talentos e contribuições.
Por isso, acredito que a maior barreira não é a deficiência, mas a
falta de oportunidades. Quando elas existem, a autonomia cresce, a autoestima
se fortalece e as possibilidades de vida se multiplicam.
7.
Educação e trabalho são fundamentais para a
participação social. Quais barreiras ainda impedem que pessoas com deficiência
tenham oportunidades reais nesses espaços, para além de simplesmente estarem
presentes neles?
EMÍLIO FIGUEIRA: Acredito que avançamos muito nas últimas décadas.
Hoje existe uma legislação mais consistente, a inclusão está mais presente no
debate público e muitas escolas, universidades e empresas têm buscado criar
ambientes mais acessíveis. Também vemos um número cada vez maior de pessoas com
deficiência ocupando espaços que antes lhes eram negados. Esses avanços merecem
ser reconhecidos.
Ao mesmo tempo, ainda há um longo caminho
pela frente. Em muitos casos, a inclusão acontece apenas no papel. A pessoa
está matriculada na escola ou contratada por uma empresa, mas não recebe as
condições necessárias para aprender, crescer profissionalmente e participar
plenamente. Além disso, o preconceito continua existindo, muitas vezes de forma
sutil, por meio das baixas expectativas em relação ao potencial das pessoas com
deficiência.
O grande desafio agora não é apenas garantir
o acesso, mas assegurar permanência, desenvolvimento e oportunidades reais.
Inclusão não significa apenas abrir a porta de entrada; significa criar
condições para que cada pessoa possa mostrar suas competências, construir
autonomia e ser reconhecida pelo seu talento. Quando isso acontece, todos
ganham: a pessoa com deficiência, as instituições e a sociedade como um todo.
8.
O capacitismo pode aparecer de formas
explícitas, mas também em atitudes aparentemente positivas, como
infantilização, superproteção ou tratar realizações comuns como extraordinárias
apenas porque foram realizadas por uma pessoa com deficiência. Como identificar
e combater essas formas mais sutis de preconceito?
EMÍLIO FIGUEIRA: Hoje, quando falamos em capacitismo, muitas
pessoas pensam apenas em atitudes claramente preconceituosas. Mas ele também
aparece de formas muito mais sutis e, justamente por isso, mais difíceis de
perceber. A infantilização, a superproteção ou o excesso de elogios por
realizações comuns podem parecer demonstrações de carinho ou incentivo, mas
acabam reforçando a ideia de que a pessoa com deficiência é diferente ou menos
capaz.
Combater esse tipo de capacitismo exige uma
mudança de olhar. Em vez de enxergar a pessoa pela deficiência, precisamos
enxergá-la como qualquer outra pessoa: alguém com qualidades, dificuldades,
talentos e limitações. Isso significa tratar uma conquista como uma conquista,
e não como um feito extraordinário apenas porque foi realizada por uma pessoa
com deficiência. Da mesma forma, oferecer ajuda quando ela é solicitada, mas
sem retirar sua autonomia ou fazer escolhas em seu lugar.
A inclusão acontece quando substituímos a
piedade pelo respeito, a superproteção pela confiança e os rótulos pelo
reconhecimento da individualidade. É assim que construímos relações mais
naturais e uma sociedade verdadeiramente inclusiva.
9.
Quando falamos de crianças e adolescentes com
deficiência, como podemos estimular o protagonismo desde cedo, permitindo que
expressem preferências, façam escolhas e participem das decisões que dizem
respeito à própria vida?
EMÍLIO FIGUEIRA: O protagonismo começa muito antes da vida adulta.
Ele nasce nas pequenas escolhas do dia a dia: escolher a roupa que quer vestir,
decidir uma brincadeira, expressar uma opinião, participar de uma conversa em
família ou assumir responsabilidades de acordo com a idade e suas
possibilidades. Quando a criança ou o adolescente é constantemente impedido de
decidir porque alguém acredita que sabe o que é melhor para ele, perde
oportunidades importantes de desenvolver autonomia, autoconfiança e senso de
responsabilidade.
É claro que toda criança precisa de orientação, tenha ou não uma
deficiência. A diferença está em não transformar a deficiência em motivo para
controlar cada aspecto da sua vida. Famílias, educadores e profissionais devem
incentivar a participação, ouvir suas preferências, respeitar seu tempo e
oferecer os apoios necessários para que ela consiga se expressar e fazer
escolhas. Isso vale também para crianças e adolescentes com deficiência
intelectual ou com maiores necessidades de apoio, sempre utilizando formas de
comunicação adequadas às suas capacidades.
Quando estimulamos esse protagonismo desde cedo, estamos preparando
adultos mais seguros, mais independentes e mais conscientes de seus direitos.
Afinal, ninguém aprende a tomar decisões de um dia para o outro. A autonomia é
construída aos poucos, por meio de experiências, acertos, erros e da confiança
que os adultos depositam na capacidade de cada criança de participar da
construção da própria história.
10. Qual
deve ser o papel das próprias pessoas com deficiência na construção de
políticas, projetos educacionais, ações de acessibilidade e iniciativas de
inclusão que são destinadas a elas?
EMÍLIO FIGUEIRA: As pessoas com deficiência devem ocupar um papel central na construção
de políticas públicas, projetos educacionais, iniciativas de acessibilidade e
todas as ações que lhes dizem respeito. Ninguém conhece melhor as barreiras do
que quem convive com elas diariamente. Por isso, sua participação não deve ser
simbólica ou apenas para validar decisões já tomadas, mas efetiva desde o
planejamento até a avaliação dos resultados.
Ao mesmo tempo, também precisamos enfrentar um desafio que nem sempre
recebe a devida atenção: o autocapacitismo. Depois de tantos anos ouvindo que
não são capazes, que precisam sempre de alguém para decidir por elas ou que
determinados espaços não lhes pertencem, algumas pessoas com deficiência acabam
incorporando essa visão e passam a duvidar do próprio potencial. Isso pode
levá-las a evitar desafios, abrir mão de oportunidades ou acreditar que sua
opinião não tem importância.
Combater o autocapacitismo também faz parte da inclusão. É preciso
incentivar as pessoas com deficiência a reconhecerem seu valor, ocuparem
espaços de decisão e compreenderem que sua experiência tem muito a contribuir
para a construção de uma sociedade mais acessível e justa. Afinal, inclusão não
acontece apenas quando a sociedade abre espaço; ela também se fortalece quando
as próprias pessoas com deficiência se reconhecem como protagonistas e agentes
de transformação.
11. Que
mensagem você gostaria de deixar para a sociedade durante a Semana Nacional da
Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla de 2026 sobre o que precisa mudar
para que “Inclua nossa voz!” deixe de ser apenas um lema e se transforme em uma
prática cotidiana?
EMÍLIO FIGUEIRA: Não precisássemos mais criar campanhas para
lembrar que as pessoas com deficiência têm voz, direitos e potencial. Que isso
fosse algo tão natural quanto reconhecer a dignidade de qualquer ser humano.
Enquanto esse dia não chega, precisamos continuar derrubando barreiras,
combatendo preconceitos e criando oportunidades reais para que todas as pessoas
possam participar plenamente da vida em sociedade.
A inclusão não depende apenas de leis ou de boas
intenções. Ela acontece nas pequenas atitudes do dia a dia: quando escutamos
antes de decidir, quando respeitamos a autonomia, quando acreditamos na
capacidade das pessoas e quando abrimos espaços para que elas sejam
protagonistas de suas próprias histórias.
Se eu pudesse deixar uma mensagem, seria esta: não
enxergue primeiro a deficiência; enxergue a pessoa. Descubra seus sonhos, seus
talentos, suas ideias e sua capacidade de contribuir para o mundo. Quando
fazemos isso, a inclusão deixa de ser um discurso e se torna uma prática. E uma
sociedade que aprende a valorizar cada pessoa, em sua singularidade, torna-se
mais humana, mais justa e melhor para todos.

