Por que ainda é tão difícil amar corpos fora do padrão, por Emílio Figueira

 


Artigo publicado no Portal SinaPsysNews, em 22de agosto de 2026, em apoio aos seus livros pela Wak Editora @wakeditora, “Intervenções Psicológicas Em Pessoas Com Deficiência”, “Psicologia e Inclusão” e “As Pessoas Com Deficiência Na História Do Brasil”, editados por Pedro Wak @pedro.wak e apoio na divulgação de Ana Lúcia Bonfim @analucia.bomfim, assessora de imprensa.

 

Capacitismo afetivo ainda limita o direito de pessoas com deficiência ao amor, ao desejo e à sexualidade. Entenda como isso acontece.

Entre os dias 21 e 28 de agosto o Brasil celebra a Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla desde 2017, quando foi instituída a Lei 13.585/2017.

Uma boa oportunidade para falarmos que inclusão na escola, trabalho, mobilidade urbana e acesso a direitos básicos é um tema em evidência, e isso é altamente importante, mas existe uma dimensão da inclusão que ainda provoca desconforto, silêncio e resistência: o afeto. Quando o tema é namoro, desejo e sexualidade, a presença da pessoa com deficiência continua sendo vista como exceção, tabu ou problema. É nesse território invisível que atua o capacitismo afetivo.

Capacitismo afetivo é o conjunto de crenças, atitudes e práticas que limitam, controlam ou deslegitimam a vida amorosa e sexual das pessoas com deficiência. Ele não aparece apenas na rejeição explícita, mas também em gestos aparentemente cuidadosos, comentários “bem-intencionados” e olhares que negam o direito básico de desejar e ser desejado.

O corpo fora do padrão e o medo social

A sociedade construiu um ideal de corpo associado à eficiência, autonomia plena, juventude e desempenho. Corpos que fogem desse padrão, seja por deficiência física, sensorial, intelectual ou psicossocial, são vistos como falhos, incompletos ou frágeis. Quando esse olhar invade o campo do afeto, o resultado é a exclusão silenciosa.

Muitas pessoas não conseguem imaginar um relacionamento amoroso com alguém com deficiência não porque falte empatia, mas porque foram educadas a associar amor a normalidade física. O desconforto não é com a pessoa, mas com o que ela representa: a lembrança de que o corpo humano é vulnerável, finito e imperfeito.

Infantilização: quando o desejo é negado

Uma das faces mais comuns do capacitismo afetivo é a infantilização. A pessoa com deficiência é tratada como alguém que não amadurece emocionalmente, que não compreende relações complexas ou que precisa ser protegida de experiências afetivas.

Esse olhar produz frases como:

  • “Ela não entende essas coisas.”
  • “Isso só vai machucar.”
  • “Ele não precisa disso.”

Na prática, o desejo é negado, a curiosidade é reprimida e o namoro é visto como risco, não como parte natural da vida. O resultado é uma geração de pessoas que cresce sem referências afetivas, sem educação sexual adequada e sem autorização simbólica para amar.

Fetichização: quando o corpo vira objeto

No extremo oposto da negação está a fetichização. Aqui, o corpo com deficiência não é ignorado, mas transformado em objeto exótico de desejo. A pessoa deixa de ser sujeito e passa a ser experiência, curiosidade ou fantasia.

Esse tipo de relação é igualmente violento, pois:

  • reduz a pessoa à sua deficiência;
  • ignora sua individualidade;
  • cria relações assimétricas;
  • reforça estigmas em vez de desconstruí-los.

O capacitismo afetivo não se manifesta apenas na recusa do amor, mas também na forma distorcida de desejar.

Entre o cuidado e o controle

Outro ponto central do capacitismo afetivo é a confusão entre cuidado e controle. Em muitos contextos familiares, o namoro da pessoa com deficiência é visto como algo a ser autorizado, supervisionado ou impedido. A autonomia emocional é tratada como perigo.

Pais, responsáveis e até profissionais de saúde acreditam estar protegendo quando, na verdade, estão impedindo a construção de experiências fundamentais para o desenvolvimento humano: frustração, descoberta, intimidade, escolha e limites.

O afeto, nesse contexto, deixa de ser direito e passa a ser concessão.

O impacto psicológico da exclusão afetiva

Viver em um mundo que constantemente sugere que você não é desejável produz marcas profundas. O capacitismo afetivo não atinge apenas as relações externas, mas se instala internamente, moldando a forma como a pessoa se percebe.

Muitos adultos com deficiência relatam:

  • medo de se aproximar de alguém;
  • sensação de não merecer amor;
  • autossabotagem em relacionamentos;
  • dificuldade de reconhecer o próprio desejo.

Esse é o capacitismo internalizado: quando o preconceito social é absorvido como verdade pessoal.

A inclusão que ainda falta

Falar em inclusão sem abordar o afeto é manter uma inclusão incompleta. Rampas, leis e acessibilidade são fundamentais, mas não substituem o direito à vida emocional plena. Amar, ser amado, errar, escolher e terminar relações fazem parte da experiência humana.

Incluir afetivamente significa:

  • reconhecer a sexualidade das pessoas com deficiência;
  • garantir educação sexual acessível;
  • respeitar escolhas afetivas;
  • combater estereótipos culturais;
  • ouvir as próprias pessoas com deficiência.

Aprender a ver diferente

Desconstruir o capacitismo afetivo exige mais do que boa vontade. Exige revisão profunda de valores, medos e crenças. Amar corpos fora do padrão não é um gesto de heroísmo, nem de caridade. É apenas reconhecer humanidade onde ela sempre existiu.

Enquanto a sociedade continuar tratando o afeto das pessoas com deficiência como exceção, a inclusão será sempre parcial. O verdadeiro avanço acontece quando o amor deixa de causar estranhamento e passa a ser visto como aquilo que sempre foi: parte essencial da vida.

Emílio Figueira

 

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