Deficiência, Realidade e Abstração!



(Publicado em 24 de julho de 1996)



Semana passada, durante uma das minhas já tradicionais conversas de bar com o consagrado escritor e professor Luiz Vitor Martinello, o mesmo me lançou um desafio. Escrever algo relacionando a realidade e abstração na vida de nós, os portadores de deficiência. O tema na hora me suou como uma grande ideia, mas, de repente, me bateu aquela velha e amiga insegurança de perguntar ao meu íntimo se eu seria capaz de escrever sobre esse assunto? E, considerando a nossa amizade, Martinello fez até uma brincadeira, dizendo que o testo iria valer nota de um a dez. Pois aqui estou tentando fazer o “meu dever de casa”!



Sentimentos comuns na vida todo ser humano é o sonho, esperança, desejo, ousadia, a busca por seus objetivos, gerando alegrias ou frustrações. E as pessoas portadoras de deficiência não deixam de ser diferentes. Mas me pergunto até que ponto essas pessoas estão preparadas para isso? Ou indo mais fundo, até que pontos alguém, portador de alguma limitação se permite ter esses desejos e luta para concretiza-los? Ou melhor, até que ponto qualquer ser humano conhecendo sua capacidade e realidade, está disposto a desafiar a si mesmo e o mundo em busca de seus ideais, abrindo mão de algumas coisas, como por exemplo, a ilusão?



Visando tentar responder minhas indagações, darei alguns exemplos. O primeiro é com relação às barreiras arquitetônicas. Faz de conta que você chega a alguém que utiliza-se de uma cadeira de rodas para a sua locomoção e o convida para ir a um Shoppng Center ou a outro lugar qualquer de lazer. A primeira reação será de alegria; mas em seguida, a realidade de sua cadeira de rodas o lembrará de algumas coisas; Será que o lugar é acessível, será que vamos encontrar pela frente todas as aquelas velhas dificuldades como a falta de guias rebaixadas, corrimãos, calçadas conservadas e livres de obstáculos, sanitários adaptados, mesas que encaixam cadeiras de rodas, rampas ao lado de escadas, pisos anti-derrapantes, portas mais largas, elevadores, corredores mais largos, etc. Dependendo da pessoa, ela sabe que em lugares públicos será o centro das atenções, motivo de curiosidade (acho um direito normal de qualquer pessoa), o que poderá lhe incomodar ou não. Diante disso, há duas atitudes a se tomar. Ou a pessoa, se consciente de sua própria cidadania e necessidades pessoais, não importa com tantos desafios, encarando o que vem pela frente, tomando até mais interessante o seu passeio e companhia de quem lhe convidou; ou simplesmente agradece o convite, desanimando diante dos obstáculos que virão pela frente, podendo ter também vergonha de expor o seu corpo que refletirá a sua realidade publicamente, demonstrando não estar consciente de si mesmo. Essas mesmas barreiras arquitetônicas e a vergonha de se expor em público se refletirá em todas as outras áreas tais como estudar, trabalhar, divertir-se, praticar esportes dentre outras tarefas do dia-a-dia, A assim pessoa se autolimitando simplesmente se abstém, preferindo viver a margem da sociedade.



Outros exemplos de abstração estão em nossas próprias ilusões pessoais. Lembro-me que quando era pequeno na fase de reabilitação e Educação Especial, tinha um grande colega de classe com a mesma limitação motora que eu; sabíamos que devido as nossas condições físicas, nunca iriamos poder dirigir um carro, mas ele sempre me dizia com convicção que quando crescesse seria um caminhoneiro igual ao seu pai. Alguns anos atrás, conversando com um pré-adolescente usuário de cadeira de rodas e com uma certa paralisia no braço direito, fiz-lhe aquela tradicional pergunta “o que você quer ser quando crescer?”, obtendo tal resposta: policial! O ano passado, durante um curso de eliminação de barreiras arquitetônicas em São Paulo, tive mais um depoimento interessante. Uma moça de nível universitário, também portadora de movimentos involuntários, disse que o seu maior desejo era que a medicina inventasse tipo de uma luva que ao colocarmos, nossa coordenação motora melhorasse, permitindo fazer todas as coisas, Ela disse isso com tanta convicção, que notei em seus olhos uma profunda frustração com o seu estado de ser.



Serão esses três exemplos de formas de abstração, criadas como uma fuga de sua própria realidade? Ou serão meras ilusões de seus autores? Deixo a analise e a palavra com os psicólogos.



Há ainda aquelas pessoas que adquirem deficiências (geralmente por acidentes) no decorrer de suas vidas e a primeira reação ao tomar conhecimento de sua limitação, é uma fuga desacreditando na palavra do médico e esperando por um “milagre”. Aliás, essa é uma reação totalmente aceitável, e que lermos todos os dias em iivros-depoimentos, Uns voltam rápido e encaram a realidade; mas outros preferem permanecer por um bom tempo nessa abstração, atrasando ainda mais a sua reabilitação que lhe permitirá, literalmente, “voltar à vida”. Sem se falar ainda, infelizmente, naqueles que nunca aceitaram a sua nova realidade, permanecendo eternamente em seu próprio mundo.



De qualquer forma, acredito como sempre na importância de se ter os pós no chão. Lembro-me que quando eu era criança e no início da adolescência, sempre fui uma pessoa com muitos sonhos, fantasias e ilusões, como ainda sou. Mas devido a todo um apoio familiar e acompanhamento especializado, fui desde meus primeiros anos conscientizado da minha própria realidade, da minha limitação e principalmente de minhas possibilidades. Sabia que eu nunca iria poder por exemplo, ser um mecânico, pedreiro ou qualquer serviço dessa natureza, embora confesso que tenha tentado como uma forma de curiosidade; mas sabia que poderia exercer qualquer atividade que dependesse da minha parte intelectual, o que hoje faço. Ou pelo menos tento!



Ainda referente a minha época de Escola Especial, tive uma professora que há alguns anos atrás reencontrei-a e já como um pesquisador da área tivermos uma conversa sobre esse assunto. Com uma larga experiência de mais 35 anos lecionando para pessoas portadoras de deficiência, eia me garantiu que às vezes é necessário apoiá-los em suas fantasias, mas também há os momentos que precisam ser sacudidos para exergarem e/ou voltarem as suas próprias realidades, tendo os pés no chão. E isso é uma tarefe, que um bom profissional da are a poderá fazer. Aliás, sempre acreditei e defendi a importância do um bom acompanhamento psicológico não só para, os portadores de deficiência, mas para qualquer ser humano. Chega daquele velho mito que “psicóloga é coisa só para louco”. Louco hoje em dia, na conjuntura atual dos acontecimentos, é quem não tem um psicólogo.



A partir de um acompanhamento psicológico a pessoa portadora de deficiência ou não, aprenderá a si conhecer e a lidar com suas limitações. Poderá se libertar de um bloqueio, ou até mesmo um anto-preconceito, se permitindo descobrir as suas reais potencialidades. Tão importante ainda, está a necessidade de recuperarmos a nossa auto- estima, a vivência de sermos apropriados ávida e às exigências que o cotidiano nos coloca; desenvolver a confiança em nossa capacidade de pensar e encarar os desafios corriqueiros do dia-a-dia. Darmos o direito de ser felizes, sabermos que cada um, independente de sua realidade, tem o seu valor, com direito de expressar nossas vontades, necessidades e desejos; sabendo ainda que temos direito de desfrutar os resultados de todos os nossos esforços. Sonhar e ter as nossas ilusões é algo necessário e um direito que ninguém pode nos negar; mas caminhar com os pés na realidade é importante, pois uma vez que a autoestima resulta quase sempre de uma imagem que temos de nós mesmos, muitas vezes apagar essa imagem construindo ou buscando uma falsa, pode gerar uma decepção, uma abstração por não auto-desafiarmos nas coisas mais normais da vida Só para concluir osso meu raciocínio, lembro do saudoso publicitário Fábio José B. Figueredo, muito amigo meu, quando ele me disse: “Grandes são os seres, que conhecedores de seus limites, tornam infinitas as suas possibilidades”!



Ah, já ia me esquecendo. Professor Martinello, agora quero saber que é a minha nota?

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